Fazenda Brasília, uma história de muitos baldes cheios


Por Nathã Carvalho

natha@pecuariabrasil.com

Referência mundial em genética do Gir Leiteiro, criação iniciada por Rubens Peres comemora este ano 50 anos de seleção. Marcada pela persistência na busca de animais superiores e por se tornar uma importante personagem na história da raça, a Fazenda Brasília é lembrada frequentemente ao se falar na fabulosa evolução da raça. Qualidade dos animais é comprovada anualmente, com os resultados em concursos leiteiros, touros provados no teste de progênie e novos recordes sendo superados por matrizes da fazenda

Em poucos momentos de análise, comparando dados de anos anteriores com os atuais, imagens de importantes animais, e informações que mostrem o desenvolvimento da raça Gir Leiteiro no Brasil, já é possível notar, a severa evolução dos animais da raça.


Quem tem a oportunidade de assistir aos atuaisjulgamentos especializados na aptidão leiteira, nem sempre, imagina o grande trabalho de melhoramento genético envolvido, para que naquele momento esteja sendo apresentados, animais daquele porte. Isso não se reflete apenas nas exposições. A raça Gir Leiteiro a cada ano está conquistando novos adeptos e novos espaços.

A cada momento, novos criadores estão entrando na raça, e novos produtores passam a utilizar genética em seus cruzamentos. Este é o resultado de um processo relativamente lento, eficiente e muito criterioso. Foi desta forma, que o gado Gir, se tornou o principal zebu leiteiro do Brasil, e por que não dizer do mundo. Entre os inúmeros autores desta “arte”, uma, logo vem a nossa mente quando falamos em Gir Leiteiro. A Fazenda Brasília.

É difícil falar em Gir, sem lembrar a marca RP. A Fazenda Brasília está comemorando este ano, 50 anos de seleção, iniciada na cidade de São Pedro dos Ferros, no Vale do Rio Doce, Estado de Minas Gerais. Rubens Rezende Peres, já tinha 700 vacas Gir padrão, pois na época, era a raça mais popular do Brasil. Após ter verificado um trabalho de seleção feito em algumas fazendas do governo, que buscava descobrir as melhores vacas de leite, ele se interessou pela atividade e resolveu partir para uma seleção leiteira, a partir do gado que já possuía. Destas 700 vacas Gir registradas, ele submeteu á elas uma pesagem de leite, na qual descobriu 80 fêmeas que se diferenciavam deste lote, pela sua produtividade.

Coincidentemente, essas 80 vacas eram provenientes de três linhagens de touros. Esses touros eram reprodutores da região, mas eram touros que estavam muito ligados ás proximidades da fazenda. Sendo assim, ele tentou comprar todas as vacas filhas destes touros que havia por perto, dando inicio á sua seleção. Passados cerca de quatro anos, Rubens Peres resolveu fazer um negócio mais sério ainda, contratando o melhor técnico que existia do governo, Dr. Hugo Prata, que hoje é o diretor do Museu da ABCZ, para montar uma escrita e auxiliar na garimpagem de outras linhagens que produziam leite. “Ele Ficou alguns anos lá, e montou uma escrita fantástica, de produção, reprodução e mais completa possível zootecnicamente, tanto é que essa escrita existe desde 1961/1962.

Com essa escrita saiu várias teses de mestrados de zootecnistas famosos hoje, por que ela é uma das mais completas que tem de Gir Leiteiro, desde muitos anos” conta Flávio Peres, atual titular da fazenda. “Meu pai perguntava ao Hugo Prata, onde há animais bons para usar. Aí ele respondia, como por exemplo - tem o bombaim que é campeão nacional em Franca, dizem que as filhas dele estão dando leite - assim, ele foi lá e comprou um

| Vale Ouro de Brasília |
filho do Bombaim com a uma das melhores vacas de leite do criatório” diz Flávio Peres. Esse bezerro, que se chamava “Caxangá”, mais tarde deu origem á linhagem do Vale ouro de Brasília, um dos touros mais famosos do Gir Leiteiro.

Vale Ouro já originou oito touros provados, entre eles, um dos destaques que é o Caju de Brasília, que também ficou muito famoso. Caju se caracteriza por produzir filhas com úberes corretos, assim como seu pai, Vale Ouro, que também melhora úbere. Modelo de Brasília é um filho de Caju, que já produziu muitas atuais filhas recordistas, inclusive três grandes campeãs nacionais. “É uma linhagem muito importante que a Brasília produziu” afirma Flávio.

Uma grande e tão importante ferramenta que contribui severamente em todo esse processo visando selecionar a produção de leite na raça Gir, foi a chegada do teste de progênie.

Ele começou a ser realizado em 1985, proporcionando principalmente mais facilidade na escolha dos touros á serem utilizados, além de mostrar quais reprodutores possuem a capacidade de transmitir as características desejáveis com mais eficaz. “Foi a revolução do Gir Leiteiro. Hoje para se iniciar uma seleção de Gir Leiteiro, está muito fácil, pois se tem os parâmetros da Embrapa gado de leite que é o teste de progênie oficial, na qual você pode usar só touros provados no rebanho, e trabalhar também com vacas com valor genético melhor, pois a Embrapa além de aferir oficialmente os touros, se tem o valor genético das fêmeas. Então isso facilitou para se trabalhar com mais segurança para se fazer um gado de leite” explica Flávio Peres.

Peres ainda conta que quando não se tinha o teste de progênie, muitas pessoas achavam que o Gir Leiteiro era um animal diferente, sem capacidade de soma e transmissão de genética leiteira ao rebanho brasileiro. “Essa era a opinião de muita gente”. Com os resultados oficiais, os testes de progênie comprovam e mostram o valor genético. Com isso, a segurança para trabalhar com touros que realmente transmite leite aos seus descendentes é ainda maior. “Isto causou uma mudança total no interesse do Gir Leiteiro, foi a mudança mais fantástica que teve, dentro da seleção, foi o resultado deste teste com a Embrapa Gado de Leite” afirma Peres.

Porém, desde muito antes da existência do teste de progênie, trabalhou-se com oitenta touros da Fazenda Brasília. Descobriram-se três touros provados para leite, três linhagens diferentes. Uma vinha do Caxangá. Outra, originada do Quadro do Umbuzeiro, que se chamava Udo, linhagem esta, que deu origem ao reprodutor Impressor de Brasília e outros touros provados. A terceira era do touro Japão, que veio da Onassas, que também originou outra linhagem de touros provados. Mais adiante, houve a necessidade de mais uma linhagem para não haver consangüinidade na fazenda.

Foi adquirido um bezerro que veio na

| Modelo de Brasília |
ultima importação da índia, ao pé da mãe, considerada a melhor vaca de leite indiana, que se chamava Sarah Hindostan, comprada por Torres Homem Rodrigues da Cunha. O bezerro se chamava Hindostan. Primeiramente, foi vendido para Sr. Francisco Barreto, criador de Gir Leiteiro, em Mococa/SP. Porém, a Fazenda Brasília, só teve acesso á este reprodutor muito depois.


“Conseguimos comprar só depois que ele quebrou a perna, pois o Sr. Barreto não queria vender de jeito nenhum. Coletamos sêmen dele com cavalete e com técnico dando choque. Fizemos vários acasalamentos, em várias matrizes. Um dos seus produtos foi o Rajastan, que mais tarde, deu origem á recordistas mundiais de leite. Assim ficamos com quatro linhagens” explica Flávio. Mesmo assim, a Brasília permaneceu com o rebanho fechado por muitos anos. Surge agora, a 5ª linhagem utilizada, proveniente do reprodutor CA Everest, e de seu filho CA Sansão.


Intensificando a produção

Para os animais permanecerem na fazenda, eles precisam atingir o patamar mínimo de produtividade. De cinco em cinco anos, esse patamar cresce 500 kg na ordenha total. Como a principal atividade da fazenda é a seleção para leite, no início, bastava o animal ser registrado e se fazia um patamar mínimo produtivo. Esse patamar iniciou em 1500 kg, hoje está em 6000 kg. Todo o rebanho é registrado, é controlado oficialmente, sem exceção. As que não atingem o patamar mínimo são eliminadas do plantel. Hoje, a média do rebanho está chegando a torno de 8000 kg de leite por lactação em 355 dias, em média. Todas as fêmeas são controladas oficialmente.


Desde o dia que saiu o primeiro controle oficial no Brasil, em 1962. Atualmente, o controle leiteiro é feito pela ESALQ - Escola Superior de Luiz de Queiroz - em Piracicaba/SP.

O leite produzido é comercializado. A produção da fazenda está entre 2500 e 3000 kg de leite diários, sendo que entre 1200 e 1500 kg, são de Gir Leiteiro, constituído por um curral com 40 vacas de segunda lactação para frente, com média de 25 á 30 kg/dia de leite. Outro curral é de vacas de primeira lactação, que deve ter uma faixa de 25 de novilhas criadas, com média de 14/15 kg de leite diários. “É uma renda fixa para ajudar nas despesas, pois trabalhar com genética tem

| Setíba de Brasília |
um custo um pouco caro, pois não se tem um faturamento diário como o leite, ainda mais agora que o setor está se recuperando” conta Flávio Peres.


Seleção

A Fazenda Brasília trabalha sempre com plantel de 500 animais. Destes, 350 são fêmeas, e o restante de bezerros mamando, touros e machos para a venda. Com esse forte time de matrizes, a seleção segue na linha das cinco linhagens utilizadas. Segundo Flávio Peres os principais critérios de seleção, são: Produção de leite, qualidade de úbere e registro de todos os animais. Os exemplares que tem qualidade a baixo da média de leite e de úbere são eliminados.


A Fazenda Brasília sempre buscou utilizar tecnologias de ponta em seu trabalho. Em 1985 quando surgiram as primeiras transferências de embriões, a fazenda começou também a realizar a prática. Já foram feitos mais de 2000 produtos frutos de transferência embrionária. Hoje, a média de prenhezes está em torno de 200/300 por ano, utilizando 20% das melhores vacas da fazenda. Estas doadoras basicamente possuem lactação igual ou superior á 9000 kg, sendo que muitas á cima de 10.000 kg. Um exemplo é a recordista Oferenda de Brasília, que além de ser mãe de cinco touros em teste de progênie, está com quase 70 produtos nascidos de transferência.

Utilizando os melhores touros disponíveis, a Fazenda Brasília multiplica sua genética de qualidade, e graças ao seu forte time de doadoras, aprimora a raça e não perde o leite.

Esta seleção visando destacar os melhores animais existentes no plantel, principalmente nas fêmeas doadoras, que transmitem aos seus filhos toda esta capacidade produtiva, testada na própria fazenda, estão dando bons resultados ano á ano. Em importantes exposições freqüentadas pela raça e pela fazenda, como a Expozebu e Megaleite em Uberaba/MG e a Feileite em São Paulo/SP, a performance da Brasília tanto em pista como torneio leiteiro, é sempre de muito sucesso.

Entre inúmeros grandes campeonatos dos torneios leiteiros da Expozebu, por exemplo, podemos citar alguns mais atuais, como a bi grande campeã, Prosa de Brasília, vencedora dos concursos da Expozebu 2002 e 2004, sendo que na última, com média diária superior á 42 kg. Em 2007, também na Expozebu, a vaca Surpresa de Brasília bateu recordes. Ela obteve média diária superior á 47 kg de leite. Já na Megaleite 2007, quem venceu o torneio, foi uma filha do Modelo TE de Brasília. Trata-se de Setíba de Brasília, que inclusive, é atual recordista mundial de produção, com 18.206 kg, o que representa, média diária superior á 49 kg.

E não é só no torneio leiteiro que a marca RP faz bonito. Na pista de julgamento, os animais do time de pista estão conquistando cada vez mais, novos e mais prêmios para a fazenda. Na última edição da exposição

| Profana de Brasília - raça, beleza e leite |
nacional da raça Gir Leiteiro, a vaca “Deusa TE de Brasília”, uma filha de CA Everest na Luzíada de Brasília (recordista mundial, com 15.388 kg de leite em 365 dias), conquistou o título de reservada de grande campeã. Deusa se destacou pela beleza racial e sua conformação de úbere, perante o jurado do evento, Fábio Miziara.

De acordo com Flávio Peres, a busca pela beleza é uma tendência. “Com o julgamento de pista, está havendo uma mudança muito forte, pois está se buscando também, mais beleza, mais raça. Porém, primeiro se deve priorizar o leite, que é o mais difícil de transmitir ao animal. Depois se trabalha para pôr beleza e raça no animal com alta produtividade.

Primeiroa produtividade e depois inserir beleza, por que todo mundo gosta de animais bonitos e bem caracterizados” explica. Um dos grandes destaques da fazenda, quando se fala em beleza, raça e balde, com certeza, é a vaca “Profana de Brasília”, que já um animal quase como referência na raça no país, por reunir muita beleza, qualidade de úbere, ser recordista mundial de produção além de ser Grande Campeã nacional na Expomilk 2005, em São Paulo/SP.


São fatos como este, que deixa Flávio Peres cada vez mais feliz, contente e satisfeito com o trabalho que vem sendo realizado. “O Gir leiteiro só nos dá prazer. Deixou de ser sonho há muito tempo, é uma realidade. As vacas vêm se superando em cada geração, e isso para nós, é motivo de muito orgulho e felicidade”.


A Fazenda Brasília conquistou o prestígio de muitos selecionadores brasileiros, principalmente por sempre trabalhar pensando em leite, mas do que tudo, e também com linhagens que transmitiam qualidade de úbere. Esse foi o principal resultado que a Fazenda Brasília transmitiu á vários rebanhos, explica Flávio Peres.

Além de conseguir provar desde no início muitos touros no teste de progênie, havia estas linhagens que corrigiam úbere com muita força, principalmente a linhagem do Vale Ouro. Isto mudou muito a qualidade de úbere do gado Gir no Brasil. “A Fazenda Brasília é de muita sorte. Hoje os principais animais da fazenda são as vacas que vem batendo recordes mundiais e contínuos, aferido em lactações oficiais e controle e concursos leiteiros. Além dos touros que vem sendo provados a cada ano, que hoje, deve ser cerca de 50 reprodutores provados, desde 1985” afirma Peres.


Manejo nutricional

Com o crescente patamar produtivo estabelecido pela fazenda, houve a necessidade de mudança do manejo nutricional. Por haver uma pressão muito forte para leite e a busca pela maior produtividade, as vacas saíram do pasto vagarosamente. Logo após, o manejo se consistiu no cocho com silagem. “Não existe em raça nenhuma uma vaca produzindo mais de 40 kg á pasto.

Á pasto, se consegue no máximo em torno de 15 ou 18 kg/dia. A partir que as produções vão aumentando, temos que partir para o cocho, melhorar nutrição, trabalhar com nutricionista” explica Flávio. Esta mudança no sistema nutricional compensa no sentido econômico e no sentido de se descobrir animais extraordinários para reproduzir esta genética e levar para testes de progênie, tendo bons resultados, que na maioria das vezes, são de animais que se trabalhou com eles, sempre com a mesma alimentação, que dá a oportunidade de descobrir animais que se destacam.


Fonte: www.pecuariabrasil.com

Dalua do Roza (Caruso HRL X Diana da SJ), de Rosimar Silva, Fazenda Santa Clara - Bela Vista de Goiás - Brasil